António Silva nasceu em Caldela, uma vila do distrito de Braga. Nasceu pobre e ficaria cedo sem pai. A mãe, Teresa, engravidou aos 30 anos do marido que com ela casava em segundas núpcias com a idade de 75 anos. Os motivos desta união tão desigual António Silva prefere não os esmiuçar. De qualquer forma, não seria, por força das circunstâncias, um casamento para durar. Por causa da brutal diferença de idades, o pequeno António chamava tios aos irmãos (filhos do primeiro casamento do pai e, alguns deles, mais velhos que a sua mãe). Aos tios, «para diferenciar», tratava-os por padrinhos.
Enquanto a mãe trabalhava a dias, António cozia batatas e castanhas, no que seria o seu primeiro contacto com a cozinha, mas, sendo uma vida difícil, sem abundância, nem se poderia chamar culinária às primeiras experiências do jovem minhoto junto das panelas.
Aos 11 anos, e por se destacar na catequese, foi encaminhado para o seminário. Um pequeno episódio fê-lo tomar consciência, no entanto, de que o seu lugar não seria perto dos altares. Foi quando reparou numas calças que voltaram rasgadas do tanque. No momento em que se dirigiu à lavadeira, para pedir explicações, deparou com «uma moçoila ribatejana, corada e bochechuda». «Pensei cá paramim: Ando eu aqui a perder o meu tempinho!» Nessa altura abandonou o seminário e começou a trabalhar nas obras, no campo, a fazer biscates. Finalmente, aos 18 anos, tomou o caminho dos rapazes mais corajosos das províncias e foi à sorte para a capital.
Toda a roupa que tinha trazia-a vestida sobre o corpo, às camadas, mas mesmo assim o frio que sentiu ainda hoje o faz recordar essa viagem de comboio, de Braga para Lisboa, feita de madrugada para aproveitar a tarifa mais barata. Quando chegou, bateu à porta de um meio-irmão, bem instalado, comandante de bombeiros. O irmão arranjou-lhe uma colocação no Hotel Suíço-Atlântico, na Rua da Glória, onde António começou de volta dos esfregões e das cascas das batatas.
Foi por esta altura, na Lisboa do início da década de 50, que António Silva começou a entrar no mundo do teatro de revista e do fado. Um mundo que adora. «Conheci fadistas fabulosos. A Cecília do Carmo, vi cantar muitas vezes. E também a Hermínia Silva, o Fernando Farinha. Só a senhora dona Amália Rodrigues, que conheci mais tarde pessoalmente, é que nunca tive o prazer de ver cantar ao vivo», recorda.
PELA PORTA DA CANTINA
No Hotel Império, para onde passou dois anos depois, trocou a jaleca riscada dos ajudantes pela branca de cozinheiro. Um momento importante na vida de qualquer aspirante a chefe que fazia o curso na tarimba dos grandes hotéis. Na altura, a cozinha do Império não era só onde se assava o rosbife dos hóspedes, mas também onde se prepararam várias fornadas de futuros grandes chefes. Homens como Manuel Ferreira - autor do compêndio Cozinha Ideal e que António Silva considera ser o único tratado de cozinha completo -, Joaquim Sousa Pereira ou Manuel Afonso. Nomes que agora não dizem muito, mas que eram «referências». A maior de todas, porém, era o chefe do Hotel Avis, João Ribeiro, «o ídolo de toda uma geração».
Depois do Império, e «como era ambicioso e tinha vontade de correr mundo», o jovem cozinheiro candidatou-se a uma vaga no Hotel Girassol, em Lourenço Marques. Por lá ficou dois anos. Depois foi o Hotel Xai-Xai e o restaurante do aeroporto da capital moçambicana. Foram anos inesquecíveis. De regresso a Portugal, foi contratado pelo Avenida Palace durante sete anos e participou na abertura de vários hotéis no Norte do país. À data do 25 de Abril, já era professor na Escola de Hotelaria do Porto.
Nessa altura, a cantina da delegação do Porto da RTP tinha fama de servir mal. Promoveu-se um curso intensivo para a cozinheira, com um professor de hotelaria. Calhou a António Silva a responsabilidade da reciclagem. Quando a dita cozinheira voltou à base, a diferença nos pratos era óbvia. Os responsáveis da televisão pediram então ao obreiro do milagre para criar o «Tele-Culinária», um programa didáctico e semanal com duração de 25 minutos. E foi assim pela porta da cantina que o chefe António Silva entrou nos estúdios da RTP, há quase 30 anos. Desde então, abriu o seu próprio restaurante, o Super-Chefe, no centro de Lisboa, e continuou a colaborar esporadicamente com as televisões, estando agora numa rubrica do programa matinal da TVI. Assinou livros de receitas, por diversas vezes foi onde estavam portugueses no mundo, matar-lhes as saudades do bacalhau e da dobrada.
Nestes anos mudaram os hábitos alimentares. Entraram as dietas saudáveis, o «fast-food», o microondas, as refeições de pacote e os nitrofuranos. Mas o chefe Silva continua a ser o guardião de uma cozinha robusta e honesta, feita directamente para o estômago.
in: Expresso
É um orgulho tê-lo connosco na edição de 2010 do renovado Mês da Enguia no concelho de Salvaterra de Magos.